Morrem as árvores do lado frio da janela. Crucificam as últimas folhas nos galhos escuros com formas que lembram o fim. Porque ali estão, altas e nuas, incompletas pela força do vento que passa algumas vezes. E permanecem em pé, do lado frio do vidro, seguras ao chão como as árvores altas…
Vai passando gente, dividida em passos apressados, com os cabelos enfurecidos pelo vento. Não me vêm porque não olham nem querem olhar, pois os olhos fogem-lhes entre as esquinas e entalam-se entre o chão e o céu. Contudo, qualquer coisa muda. O céu foge mais lento e a janela desfoca as árvores porque respiro mais rápido.
Não sei, mas penso-me lá fora enquanto a chuva começa a limpar o ar com gotas que parecem suor. Quase que me aquecem…
E os pingos caem lentos, seguindo regras específicas, em sítios planeados pelas nuvens. Imagino-os em equações perfeitas, com resultados únicos, tão únicos como as esquinas que aguçam os prédios ou tão afiados como os galhos.
Vejo o ar encharcado a molhar as folhas mortas, trazendo lágrimas que se choram lá longe…
E o momento prolonga-se, embaciando o vidro com uma espécie de ansiedade qualquer…e pergunto-me porquê.
Porque os meus porquês fogem como os entretantos metidos no meio da chuva. E no meio de mim tremo de frio…
Fábio in 22.01.2010
"os olhos fogem-lhes entre as esquinas e entalam-se entre o chão e o céu."
ResponderExcluirO vento equacionou-se em mil arrepios em mim ao ler essa frase e "no meio de mim tremi de frio" tremi de desejo por mais, e cada vez mais...
És o maior :)