terça-feira, 17 de agosto de 2010

'inexplicabilidade'

Inexplicável. Quando os rumos dos nossos olhares se cruzam, quando a nossa respiração acelera ao mesmo ritmo, quando tu e eu nos unimos pela força invisível mas existente de algo, quando tudo acontece ao mesmo tempo e nada acontece ao acaso, acontece. Acontece o acontecimento neutro, voraz, feroz que dentro de nós anseia por sair, anseia por fugir, anseia por se denunciar. O inexplicável acontece. A ciência é nula, a magia é constante. Inexplicável. A explicação não compreende. A compreensão não explica. As mais diversas e aplicáveis teorias não se moldam ao tudo o que um olhar transmite. Não compreendemos o momento. Não o explicamos porque é inexplicável.
Inexplicável é a ponte invisível, sólida e ténue que nos liga. Conecta-nos.
Inexplicáveis são as tremuras que sentimos debaixo da delicada pele que nos deixam imóveis.
Inexplicável é tudo o que acontece ao mesmo tempo, no mesmo instante, no mesmo lugar. Nada muda. Só tu e eu. Nós. Estamos no tempo. Estamos no espaço. Sem conseguir sair, contudo, sem querer sair. As horas são infinitas naquele segundo. O universo foge, desaparece. Desaparece tudo e desaparecem todos. Estamos ali, sozinhos. Presos por um olhar que nos liga, interliga. Sentimos um arrepio multiplicado por muitos, como uma brisa de uma manhã primaveril ainda apegada aos rigores do Inverno. O calor que nos incomoda, denuncia-nos. Fala por nós aquele calor mágico.
Aproximamo-nos.
O metabolismo do nosso olhar emerge pelos passos que damos. Somos empurrados por algo inexplicavelmente confortante. Ali, naquele lugar, naquele instante somos um. Somos um unido por nós. Somos um unido por olhares atentos, disfarçados de intentos que um olhar impinge. A imponência desse olhar revela o mais fraco que existe em nós, dentro de nós, entre nós.
Tocamo-nos.
Ouro. Brisas perfumadas. Harmonia. Nuvens de duvidas assaltam-nos embaciando-nos a vista. Perguntamo-nos se podemos fazer isto ou aquilo. Será que posso tocar aqui. Sem responder a nada continuamos. O inexplicável aconteceu, acontece e vai acontecendo. Os nossos corpos, inconstantes na sua forma, variáveis na sua temperatura, moldando-se no seu interior, aproximam-se. Os braços abraçam. As pernas paradas. Dançamos ao sabor do momento. Sem nunca sair do lugar, dançamos valsas e tangos à medida que nos sentimos reciprocamente. Desejos que se anseiam por dentro, que se “inexplicam” por fora. O que se desejava, realidade se torna. Como um pressentimento enaltecido pelo pensamento que inexplicavelmente acontece e nos deixa incompreensivelmente pensativos.
Beijamo-nos.
Miraculoso é o toque. Milagreiro se torna o momento. Cura mutuamente os sentidos. Acalma-me os sentimentos. Os lábios juntam-se num só. Avermelham-se enternecidamente. Garridos mostram o inexplicável lugar que nos oculta, que nos esconde. O sabor vulgar, misterioso da língua identifica-nos. Agora estou dentro de ti e tu dentro de mim. Unidos pela suave e fixadora sensação de sermos o outro. Pilares se constroem dentro de cada um. Dentro de cada um visões são transmitidas. O teu calor interno abala-me, amortiza-me. O paladar é doce como o açúcar e saboroso como o chocolate, é o melhor que pode haver, porque naquele momento somos nós e não eu ou tu. É inexplicável porque é nosso.
Acaba. Olhamo-nos. O fio dourado ligado aos nossos olhos rompe-se pela mesma força inexplicável que o criou. Contudo, agora o fio não nos liga. Agora nada nos liga. Agora, somos um, conectado pela existência de que somos de alguém. E que num dado instante, onde o tempo parou e o espaço deixou de existir, fomos um corpo, abraçado por um pensamento, sentido por um desejo, saboreado por um beijo.



Fábio in 4.11.08

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