terça-feira, 17 de agosto de 2010

Não-Vento


O vento asfixia as árvores lá fora. Sinto-as a sufocarem, a silenciarem-se devagar no sozinho da noite. Parecem não se mexerem e não morrerem. Ficam-se ali, assim desnudas, sofrendo arrefecidas. Nada fazem senão agitarem um ou outro ramo que parece desfalecer. Evitam lutar com os mais grossos, os mais fortes, porque o vento é ágil. Vão morrendo, uma a uma, entaladas no vento que assobia.
E faço-me de testemunha com a persiana entreaberta, inoculando as sensações que não recebo do vento. Não lhe sinto os socos, o cheiro ou o suor. Não lhe sinto o corpo musculado. Não o vejo… Apenas agarro à retina a imagem das árvores a tremerem por um espírito que se faz assobiar.
Aproximo-me da janela.
Quero ouvir o rancor dele, do ar rápido. Quero sentir a prisão dos seus braços no meu pescoço. Quero que me arranque os cabelos… Quero sangrar!
Encosto o ouvido no vidro.
Talvez um sussurro defina o sinal? Rouquidão pura, lenta como o ranho a cair, enquanto a persiana abana um pouco. Sei que vem de cima, do alto da fachada. Quero vê-lo!

Destranco o vidro… Abro-o devagar, incauto. À medida que desliza, pela abertura ele penetra. Vou abrindo mais e ele entra mais, rompendo as cortinas com fomes de bestas. Vai entrando e aumentado o seu circuito, a sua órbita em mim, devagar e só.
Lanço-me lá fora.

Continuo sem o ver… Procuro o vento lá em cima, ao redor do céu, pelas esquinas da escuridão, debaixo das raízes. Nada… Porquê?
Não o vejo, nem ouço. Não sinto nada nas árvores. Nenhum rumor de mundos, nenhuma estrela colossal, nada!
Não me esgana nem esmaga. Parece que faz a lua ter frio. Parece que congela o limite do universo e exclama silêncios. É calado e hipócrita. …mas não o vejo.

Aqui, no meio do pátio, com a visão do meu quarto de janela aberta. Nada aconteceu como arranhara a memória. Tanta quietude, tanto nada na noite…tanto vento. Só isso, vento… Nenhum grito que possa captar, nenhum punho que me faça cair, nenhum espírito a que possa dar nome. Só isso, vento.

Sinto a boca seca porque dela me sai o vazio. Ou talvez palavras esvaziadas…não sei.
Talvez gritasse agora. Para quê? Porque não me ouve aquilo que não vejo…

Acordo, abro a janela, mecânico.

(suspiro)
É de manhã (suspiro) …
…e está a chover.


06.03.2010

Um comentário:

  1. eu "exclamo silencio" perante o vento que tu me impinges, perante as "palavras esvaziadas…não sei."

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