quarta-feira, 29 de setembro de 2010

querida nuvem

Talvez tenham os teus olhos visto o ar cá em baixo a escurecer os dias. Como a noite que prolonga os caminhos e a estrada não dá conta.
As árvores desnudam-se e calcam as folhas com ramos cheios de nada.
Trago na cabeça qualquer coisa esvaziada, como se trouxesse a dor de não-ser. Pois talvez fossem os olhos mais recheados do mesmo que molha o coração, ou a língua não secasse como a pele que pelo frio se envergonha de mim. E continua e arranca-se a pele do que tenho dentro de mim e que sou eu - um ferro quebradiço, enferrujado como o vento que assobia.
Tu aí em cima, que cobres com véus o mundo, ilumina-me de contraste, de coisas diferentes…ou simplesmente contorna-me com os marcadores que fecham o infinito. Porque me falta saliva para pensar e vontade de falar. Porque o mel me escurece as veias como as noites ventosas. Como noites me tenho sentido, assim, escuro e vazio, gélido como os cometas que talvez existam.
Os meus dedos enfraquecem quando te escrevo, ó nuvem alta! Peço-te que não me lances demoras nem tempos imprevistos porque parei de dar horas. Não me lances chuvas de memórias cinzentas talvez pintadas pela saudade que já põe distancia no meio de nós.
Nuvem que te penduras no céu, deixa-te molhar pela estrela que guarda o meu caminho, deixa-te atravessar pelo sol que me faz falta…não quero ficar cá em baixo, no mesmo sítio, até que me faltem as páginas da alma…





04.03.2010

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