terça-feira, 28 de setembro de 2010

soldado

Uma lança parte-te ao meio, assim, suavemente. Ficaste ali a jorrar a tua vida, a pintar o chão de sangue enquanto o Sol subia vermelho. Nasciam em ti manchas pálidas do que te criou, da matéria que te atravessava. E as minhas palavras desvaneciam no teu tímpano, assim, entardecidas. A luz que trazia o crepúsculo murmurava numa língua proibida o teu destino, uma lembrança que o presente herdara dos Reis escondidos de outrora. Equação das mais imperfeitas, a equação de uma morte sonolenta, um exangue bélico onde a tua ofegância me misturava num imóvel movimento. Via-te ali, atingida, aconchegada à tua armadura ensopada, numa ternura digna da Estrela do Norte onde só se refugiam os planetas que não existem. Porque tu, amortecida e enevoada soltavas uma neblina invisível, um dócil fumo de vida. Ainda tinhas a espada agrilhoada nos dedos e o teu pulso permanecia firme. Tinhas as pernas contraídas tornando-te uma guerreira mesmo na morte…e mesmo contra a morte. Lutaste e eu assisti, e aplaudia de vez em quando, e assobiava também. Mas fraquejaste. Cedeste, e agora os teus dedos dissolviam a tua força para mim. Seguraste a minha mão num gesto fraco, olhaste-me e balbuciaste um idioma partido, desterrado de sentido ou anónimo. Fazias um esforço para as letras se montarem mas as tuas pernas estavam agora moles, e as manchas brancas tornavam-se numa treva única. Vi as lágrimas a embaciarem-te a vida, a clamarem por ajuda. Mas eu via-te parado, ali, assim, adormecido. Mexeste-te com mais força, ainda que não fosse suficiente para os músculos contraírem. Na verdade, mexeste apenas os olhos... Continuou o momento sem ter conclusão definida. Ficaste assim, a olhar-me enevoada, parada e imutável. Pensei em abraçar-te e fi-lo. Apesar da tua morte expiraste uma última vez, fora do alcance dos deuses ou da obscuridade, e eu senti-te perto. Nunca te abraçara. Nunca te beijara. Nunca sequer te vira àquela distância. Mas ali, no teu leito, vi-te como uma mãe vê um filho, como a lua vê o céu, como um trovão vê o relâmpago. Depois de te largar, pousei-te suavemente na relva ensanguentada, desembainhei a tua espada régia e furei o mundo com ela. Arranquei o meu elmo encimado pelo Cavalo Alado do Lado por Trás do Horizonte e fechei os dedos no punho invertido da lâmina. Lágrimas saíram, inventaram destinos venenosos ou vinganças inférteis, não sei. Sei que ali, assim, chorava. Estendeste-te naquela tua posição real à força do golpe e os teus domínios caíram na matéria que te atravessou e que te pertencia agora, para sempre. Ficaste e eu também.
Esperei que o exército dispersasse e, ali, assim, prestei o único tributo digno de ti. Desprendi o meu manto, arranquei a minha armadura do meu corpo e agradeci por te ter abraçado, minha Rainha.



28.09.10

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