Passa pouco da meia-noite. Peço ao mundo que me ouça, o silêncio do meu pouco entender. Ouve-se do outro lado do velho muro o luar entrelaçando os ossos numa frieza antiga, um carro atulhado em ruído, árvores que silvam ao vento. Já não sei o que fazer, em que cidades construir o meu planalto sem horas que me sufoquem. É quase natal, uma nuvem quase negra essa, a que com esse nome se mascara de luzes e pinheiros…e sorrisos falsos!
Falta-me o ar. Falta-me um futuro fogoso. Porque, inevitavelmente que se saibam, entrevem-se algures os ferros, escondidos atrás dos dias e das noites, pregos sós prontos para me pendurarem à cruz. Sou a batalha fétida da depressão, momentos exangues de sentido… Sou-me perdido em frente a um ecran branco de podridão. Morre maldição. Mata-te ó corpo.
A luz começa a fruir pelas frinchas da persiana. Já de manhã? Levou o tempo a melhor de meu preceito, da minha dor continuada. Terei eu de testemunhar este homicídio protagonizado pelos relógios da vida, ponteiros lavados em sangue e medo? Faça-se justiça nesta merda deste mundo, diluam-se os instantes no ácido da História! Mostrem-se ó Deuses, ó divinos que se falam pelas montanhas e pelas cidades; sente-se cada rei no seu trono e erga o corno da sua guerra; lavem-se mãos nojentas dos crimes que afagaste, no veludo negro dos cérebros.
Será demasiado pedir que uma palavra se faça ouvir? Uma paz, uma alegria, um viver qualquer. Olho lá para fora e já é noite. E se enviasse esta carta ao pai natal? Talvez uma carência psiquiátrica, um imaginário falso, uma realidade minha, inventada…talvez isso me ajude, me condene…me deixe tão morto como eu quero estar.
domingo, 11 de dezembro de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
sou exangue
Uma memória metralhava
Uma fina saudade só
Entre silêncios cantava
No meu cérebro em pó.
Um clangor suave
Um desvanecido pecado
Calvário bom, grito grave
Como quem gosta de fado.
É isto, escrever sem ler
O que sussurram as memórias
Pedaços de ti, pedaços de ser
Sem que o sejam as histórias.
Falar alto ao mundo
Ou deixar de olhar a lua
Ver-te passar, tocar o fundo
Deixar de existir, pensar-te nua.
Porque me morre o olhar
Onde explodiu o teu vulcão
Saber, sentir, ver-te falhar
E reconhecer-te a perfeição.
Naqueles lados obscuros
Onde se sente até o ar
Falaria entre silêncios duros
Silêncios sós, nosso beijar.
E penso-te toda, assim
Entre peças de um sangue
Sou o que meteste em mim
E que tiraste. Sou exangue.
19.7.11
Uma fina saudade só
Entre silêncios cantava
No meu cérebro em pó.
Um clangor suave
Um desvanecido pecado
Calvário bom, grito grave
Como quem gosta de fado.
É isto, escrever sem ler
O que sussurram as memórias
Pedaços de ti, pedaços de ser
Sem que o sejam as histórias.
Falar alto ao mundo
Ou deixar de olhar a lua
Ver-te passar, tocar o fundo
Deixar de existir, pensar-te nua.
Porque me morre o olhar
Onde explodiu o teu vulcão
Saber, sentir, ver-te falhar
E reconhecer-te a perfeição.
Naqueles lados obscuros
Onde se sente até o ar
Falaria entre silêncios duros
Silêncios sós, nosso beijar.
E penso-te toda, assim
Entre peças de um sangue
Sou o que meteste em mim
E que tiraste. Sou exangue.
19.7.11
quinta-feira, 7 de julho de 2011
acabou
Deixei-te um sonho que já não arde. Que já não crepita, já não respira. Abandonei-te sob as margens etéreas do nosso passado, aquelas onde nos costumávamos beijar e abraçar. Em breve, entre lâminas e sagas, escreverei histórias sobre nós e nossa falência quase crónica. Porque nunca nos fomos destinados, nunca escrevemos no mesmo papiro ou no mesmo livro. Fomos, um por si, dois. E por isso te deixei nisso, nessa espécie de alavanca estragada, morta por futuros que nunca existirão. Eis agora que, entalados nestes momentos frios, vejo passarem-me pelos olhos os segundos em que não sosseguei, que não consegui descansar nos teus olhos, que não saboreei os teus lábios. Vejo-te perdida na cordilheira que é a solidão, balançando nas montanhas, segura apenas pela esperança vazia com que tentas manter a nossa relação. A relação que eu matei, asfixiada ao limite…hasteando sobre o seu sangue uma bandeira quase suástica. Larguei a tua mão no meio do deserto, no oculto negro com que se destroem nações inteiras, com aquele único número que desactiva o motor que gira o mundo. …Não percebo até onde vai o meu atrevimento, não prevejo até onde escreverei isto, esta coisa, esta condenação.
Enforquei-te e deixei-te pendurada. Depois, com o cadafalso caído, contorcias-te e eu via, neutro, imóvel. De quando em vez gritavas no sufoco, clamavas pelo meu nome e pelos beijos que, por meses, ansiaste. Morreste em frente a mim e eu observei. Quase que me lembro de tudo. A nossa relação, contigo dentro, a desesperar, a ficar, a engolir-se. O universo - agora o sei - fez em ti o desígnio que eu, ostensivamente, procuro. Tu, na tua beleza óbvia, mostraste-me o poder que existe em cada molécula, em cada pesadelo, em cada toque. E eu percebi que há poderes inexpugnáveis…e outros que não.
Eu olhei-te. Estavas estendida sobre ti no meio da sala. Tinha-te deixado na forca da nossa relação. Foi aí que eu disse: “Acabou.”…tu respondeste: “Eu sei.”
…e só aí….eu chorei.
7.7.11
Enforquei-te e deixei-te pendurada. Depois, com o cadafalso caído, contorcias-te e eu via, neutro, imóvel. De quando em vez gritavas no sufoco, clamavas pelo meu nome e pelos beijos que, por meses, ansiaste. Morreste em frente a mim e eu observei. Quase que me lembro de tudo. A nossa relação, contigo dentro, a desesperar, a ficar, a engolir-se. O universo - agora o sei - fez em ti o desígnio que eu, ostensivamente, procuro. Tu, na tua beleza óbvia, mostraste-me o poder que existe em cada molécula, em cada pesadelo, em cada toque. E eu percebi que há poderes inexpugnáveis…e outros que não.
Eu olhei-te. Estavas estendida sobre ti no meio da sala. Tinha-te deixado na forca da nossa relação. Foi aí que eu disse: “Acabou.”…tu respondeste: “Eu sei.”
…e só aí….eu chorei.
7.7.11
terça-feira, 5 de julho de 2011
Feira do Livro: Criatura Pedinte
Há - desde há muito tempo - uma criatura que deambula por lá, com um fedor orbital e uma aparência, digamos, inapropriada. Ninguém lhe sabe o nome, a idade ou a justificação de, durante boa parte do dia, estar, efectivamente, ali. Não que esteja simplesmente, não, ela está e faz. Alia quase perfeitamente o espaço e a consequência das coisas para que, a dado momento, o seu objectivo se concretize para a próxima injecção. Nisto (creio) se resume a, digamos, vida desta criatura.
O método é simples: Olha, vê alguém possivelmente abastado (a quem tem a decência de chamar “Doutor”) ou com um excesso, quase numérico, de compaixão e, inevitavelmente, ataca. Fá-lo como um predador, marca e persegue a presa até ao limite. Uma vez a presa extorquida (ou não), avança e repete o processo, com uma pujança invejável, sem qualquer noção escrupulosa, se preciso for, ali mesmo, na pessoa ao lado. A coisa torna-se ridícula quando se reflecte – tal como um predador animal, e portanto irracional – sobre os mecanismos que usa. Como já falamos, o fedor de tal intensidade que, quando cheirado, facilmente se percebe que é, não falta de higiene, mas uma arma concebida e desenhada – e, portanto, pensada - para uma tarefa específica: não se suporta por mais de 12 segundos.
O segundo mecanismo é, veja-se, a voz. Num primeiro estágio, tal como uma estirpe virulenta de uma doença, olha-se e repulsa-se aquela criatura. Uma voz que, mesmo antes de enunciada, anuncia o terror dos próximos momentos: tudo na boca está mal criado, semelhante a um erro divino, impensável e destituído de qualquer misericórdia. Mas ainda assim, e sabendo-o certamente, a criatura prossegue. E vem o som. Coisa penetrante dado o volume com que fala, injectando nele a quantidade de decibéis representativa da vontade ressacada que tem de, literalmente, injectar nas veias a próxima droga. Tudo isto cria, no segundo estágio, embaraço. Uma diminuição significativa do primeiro que não possibilitava qualquer vislumbre de sucesso. O cheiro, esse, aumenta exponencialmente à medida que os segundos ultrapassam o limite imposto, quase por inconsciência, por todos.
Terceiro mecanismo: a frase. “Senhor(a) paga-me uma sopinha que tenho fome/necessidade de comer?”. Tudo, aqui, está certo. A educação que aplica no sujeito, o diminutivo psicológico que emprega e a razão – animal, e por isso, universal – de comer. Até aqui, se a criatura não tivesse metade do cérebro derretido, o sucesso seria alcançado. Na presa, uma vez iludida numa visão horrenda e embebida num cheiro nauseabundo, aquela frase atingiria, passando por sucessivas barreiras monetárias e cerebrais, o movimento tão selvaticamente ansiado: meter a mão ao bolso e tirar uma quantia singela de moedas.
Mas, seguindo o equilíbrio do universo, nada é perfeito e o erro torna-se peso de balanço numa acção que se presumia perfeita. E esta criatura não é excepção. Estando a presa no único momento que tem de consciencializar o que ouve, cheira e vê à sua frente, naquela hesitação que permite a segurança de um humano face aos perigos do mundo, aquele não mais do que um segundo de pensamento, o predador insiste e aplica mais uma série de mecanismos de erro – ou de equilíbrio. Começa pelo toque material. Aplica na presa uma força não civilizada de pressão. Chega, por vezes, mais longe, não tocando mas agarrando, sentindo a densidade e o peso do objecto. Até, em certas pessoas mais relutantes, aplica a força das duas mãos. Nesse momento, aqueles segundos de pensamento tornam-se noutra matéria distinta desprovida de razão: em instintos. Já não se trata de dar dinheiro para manter a existência de alguém ou para suster a sua orgânica. Não se trata de pensar sobre o assunto. Trata-se de recorrer a todos os métodos para acabar com aquela espécie de contaminação, ainda que imaterial, de liberdade sem penas nem consequências. Torna-se então crucial o afastamento – como um medicamento prescrito pela circunstância.
Neste ponto da investida, a fase da “doença” inicia o processo de remissão a um ritmo galopante. Já não basta dizer que não, que não se tem dinheiro, que não se quer ou até, como já ouvi, que se está enjoado. Não. Para sair daquela prisão - construída ainda que sob plurais razões de vício – é necessário suster a respiração (o cheiro tornar-se-á, a certa altura, execrável) e dizer: VÁ SE EMBORA, PORRA! – as variantes menos sociáveis também se ouvem com invulgar repetição.
O predador, recebida a mensagem, declara o seu insucesso num silêncio que por ser neutro provoca na vítima, não apenas o auto-desprezo mas o significado absurdo que aqueles minutos acabaram de ter na existência da criatura. Com uma normalidade incómoda, o predador – agora derrotado – saí, com a triunfante marca da neutralidade, e aproxima-se de outra presa. Este intervalo que vai da derrota à nova eleição completamente aleatória – ainda que sob razões pragmaticamente fundadas – de uma nova vítima dá-se instantaneamente. Vê-se que aquele cérebro não trabalha de forma autónoma, como elemento fulcral na orgânica de um corpo, ou ainda como controlo desse mesmo corpo. Ali está enterrado em metal liquefeito a programação de um acto que dura durante breves minutos, simplesmente com o âmbito, não de comer, não de prazer, nem ainda de viver. Vive-se, naqueles breves minutos – que não são senão a vida da criatura repetida infinitas vezes – para o comprazimento que outros segundos têm naquele cérebro: a seringa rápida no interior do cotovelo e a absorção e prazer instantâneos. E, fazendo de si elemento único da realidade, com um sistema jurídico autónomo, vai julgando quem vê, mancando obsessiva e silenciosamente.
Mas passam as horas e, mesmo elegendo vítimas rua acima, nunca se deixa de ouvir, com maior ou menor atenção, como um zumbido inquietante, a já prodigiosa frase: “Senhora, pague-me uma sopinha!”
O método é simples: Olha, vê alguém possivelmente abastado (a quem tem a decência de chamar “Doutor”) ou com um excesso, quase numérico, de compaixão e, inevitavelmente, ataca. Fá-lo como um predador, marca e persegue a presa até ao limite. Uma vez a presa extorquida (ou não), avança e repete o processo, com uma pujança invejável, sem qualquer noção escrupulosa, se preciso for, ali mesmo, na pessoa ao lado. A coisa torna-se ridícula quando se reflecte – tal como um predador animal, e portanto irracional – sobre os mecanismos que usa. Como já falamos, o fedor de tal intensidade que, quando cheirado, facilmente se percebe que é, não falta de higiene, mas uma arma concebida e desenhada – e, portanto, pensada - para uma tarefa específica: não se suporta por mais de 12 segundos.
O segundo mecanismo é, veja-se, a voz. Num primeiro estágio, tal como uma estirpe virulenta de uma doença, olha-se e repulsa-se aquela criatura. Uma voz que, mesmo antes de enunciada, anuncia o terror dos próximos momentos: tudo na boca está mal criado, semelhante a um erro divino, impensável e destituído de qualquer misericórdia. Mas ainda assim, e sabendo-o certamente, a criatura prossegue. E vem o som. Coisa penetrante dado o volume com que fala, injectando nele a quantidade de decibéis representativa da vontade ressacada que tem de, literalmente, injectar nas veias a próxima droga. Tudo isto cria, no segundo estágio, embaraço. Uma diminuição significativa do primeiro que não possibilitava qualquer vislumbre de sucesso. O cheiro, esse, aumenta exponencialmente à medida que os segundos ultrapassam o limite imposto, quase por inconsciência, por todos.
Terceiro mecanismo: a frase. “Senhor(a) paga-me uma sopinha que tenho fome/necessidade de comer?”. Tudo, aqui, está certo. A educação que aplica no sujeito, o diminutivo psicológico que emprega e a razão – animal, e por isso, universal – de comer. Até aqui, se a criatura não tivesse metade do cérebro derretido, o sucesso seria alcançado. Na presa, uma vez iludida numa visão horrenda e embebida num cheiro nauseabundo, aquela frase atingiria, passando por sucessivas barreiras monetárias e cerebrais, o movimento tão selvaticamente ansiado: meter a mão ao bolso e tirar uma quantia singela de moedas.
Mas, seguindo o equilíbrio do universo, nada é perfeito e o erro torna-se peso de balanço numa acção que se presumia perfeita. E esta criatura não é excepção. Estando a presa no único momento que tem de consciencializar o que ouve, cheira e vê à sua frente, naquela hesitação que permite a segurança de um humano face aos perigos do mundo, aquele não mais do que um segundo de pensamento, o predador insiste e aplica mais uma série de mecanismos de erro – ou de equilíbrio. Começa pelo toque material. Aplica na presa uma força não civilizada de pressão. Chega, por vezes, mais longe, não tocando mas agarrando, sentindo a densidade e o peso do objecto. Até, em certas pessoas mais relutantes, aplica a força das duas mãos. Nesse momento, aqueles segundos de pensamento tornam-se noutra matéria distinta desprovida de razão: em instintos. Já não se trata de dar dinheiro para manter a existência de alguém ou para suster a sua orgânica. Não se trata de pensar sobre o assunto. Trata-se de recorrer a todos os métodos para acabar com aquela espécie de contaminação, ainda que imaterial, de liberdade sem penas nem consequências. Torna-se então crucial o afastamento – como um medicamento prescrito pela circunstância.
Neste ponto da investida, a fase da “doença” inicia o processo de remissão a um ritmo galopante. Já não basta dizer que não, que não se tem dinheiro, que não se quer ou até, como já ouvi, que se está enjoado. Não. Para sair daquela prisão - construída ainda que sob plurais razões de vício – é necessário suster a respiração (o cheiro tornar-se-á, a certa altura, execrável) e dizer: VÁ SE EMBORA, PORRA! – as variantes menos sociáveis também se ouvem com invulgar repetição.
O predador, recebida a mensagem, declara o seu insucesso num silêncio que por ser neutro provoca na vítima, não apenas o auto-desprezo mas o significado absurdo que aqueles minutos acabaram de ter na existência da criatura. Com uma normalidade incómoda, o predador – agora derrotado – saí, com a triunfante marca da neutralidade, e aproxima-se de outra presa. Este intervalo que vai da derrota à nova eleição completamente aleatória – ainda que sob razões pragmaticamente fundadas – de uma nova vítima dá-se instantaneamente. Vê-se que aquele cérebro não trabalha de forma autónoma, como elemento fulcral na orgânica de um corpo, ou ainda como controlo desse mesmo corpo. Ali está enterrado em metal liquefeito a programação de um acto que dura durante breves minutos, simplesmente com o âmbito, não de comer, não de prazer, nem ainda de viver. Vive-se, naqueles breves minutos – que não são senão a vida da criatura repetida infinitas vezes – para o comprazimento que outros segundos têm naquele cérebro: a seringa rápida no interior do cotovelo e a absorção e prazer instantâneos. E, fazendo de si elemento único da realidade, com um sistema jurídico autónomo, vai julgando quem vê, mancando obsessiva e silenciosamente.
Mas passam as horas e, mesmo elegendo vítimas rua acima, nunca se deixa de ouvir, com maior ou menor atenção, como um zumbido inquietante, a já prodigiosa frase: “Senhora, pague-me uma sopinha!”
terça-feira, 21 de junho de 2011
última desconjuntada conversa
Faz calor. Esmigalhaste-me o coração que te dei, sem retorno, com a vontade de mil anos de amor. Ao meu redor vemos os taipais de plurais cores, garridos à força do sol do meio-dia. Falo para ti, desta forma, porque sei que me tentas ouvir. E continuo a falar.
Já pensaste naquelas férias que íamos fazer? Tinhas pensado no Havai. O teu sorriso cintilava quando te falava poeticamente do hotel onde poderíamos estar. Um pequeno pedaço de mundo só nosso, banhado pelos oceanos que molharam os corpos de antigas rainhas. O sol douraria sobre a baía numa conversa calma e excitante com as areias do nosso abraço. Juntos, numa espreguiçadeira só, tu e eu, ouvindo o lento marulhar das ondas, as falésias a invejarem o longínquo horizonte, e as nossas roupas – todas elas – a mirrarem o céu acima, desejando o ardor dos nossos corpos. Parece que me lembro dos detalhes todos. Mas acho que não queres ouvir o que já ouviste.
Ontem, perto do talho, um homem perguntou-me por ti. Uma criatura esculpida com as formas com que outras mulheres se excitariam. “Quem é você?”. Josh Phelps, o nome dele. E disse-me que era teu marido. Há doze anos.
…as lágrimas lambem-me a cara agora, fico sem vontade de falar para este pedaço de calhau.
Só te digo que, onde quer que estejas – se é que estás nalgum sítio – esta foi a nossa última conversa. Despedia-me de ti com um beijo mas, agora que vi o teu querido Josh a sair daqui, espero que ardas no mais atrofiante dos infernos. Se achares que te dá proveito deixo aqui a nossa aliança. Vi com ela as nossas bodas de prata. Enfim… Pode ser que nasçam dela os teus filhos Phelpszinhos. Comigo e com o meu futuro não interfirás. Nem tu, nem o oblíquo da tua morte.
Despeço-me deste cemitério taciturno e com ímpia raiva de Phelps. Mas com mais raiva do que li na tua urna, durante meses. “Elysabeth Gray, Casada com Robert Gray.”
Ao sair, fez-se no meu rosto um lúgubre sorriso ao imaginar-te, enclausurada naquele carro, completamente desfeita em sangue, a gritar: “Josh!...Alguém! Josh...! Acudam!”…e ninguém te estender um dedo sequer.
SaintBroken 21.06.11
Já pensaste naquelas férias que íamos fazer? Tinhas pensado no Havai. O teu sorriso cintilava quando te falava poeticamente do hotel onde poderíamos estar. Um pequeno pedaço de mundo só nosso, banhado pelos oceanos que molharam os corpos de antigas rainhas. O sol douraria sobre a baía numa conversa calma e excitante com as areias do nosso abraço. Juntos, numa espreguiçadeira só, tu e eu, ouvindo o lento marulhar das ondas, as falésias a invejarem o longínquo horizonte, e as nossas roupas – todas elas – a mirrarem o céu acima, desejando o ardor dos nossos corpos. Parece que me lembro dos detalhes todos. Mas acho que não queres ouvir o que já ouviste.
Ontem, perto do talho, um homem perguntou-me por ti. Uma criatura esculpida com as formas com que outras mulheres se excitariam. “Quem é você?”. Josh Phelps, o nome dele. E disse-me que era teu marido. Há doze anos.
…as lágrimas lambem-me a cara agora, fico sem vontade de falar para este pedaço de calhau.
Só te digo que, onde quer que estejas – se é que estás nalgum sítio – esta foi a nossa última conversa. Despedia-me de ti com um beijo mas, agora que vi o teu querido Josh a sair daqui, espero que ardas no mais atrofiante dos infernos. Se achares que te dá proveito deixo aqui a nossa aliança. Vi com ela as nossas bodas de prata. Enfim… Pode ser que nasçam dela os teus filhos Phelpszinhos. Comigo e com o meu futuro não interfirás. Nem tu, nem o oblíquo da tua morte.
Despeço-me deste cemitério taciturno e com ímpia raiva de Phelps. Mas com mais raiva do que li na tua urna, durante meses. “Elysabeth Gray, Casada com Robert Gray.”
Ao sair, fez-se no meu rosto um lúgubre sorriso ao imaginar-te, enclausurada naquele carro, completamente desfeita em sangue, a gritar: “Josh!...Alguém! Josh...! Acudam!”…e ninguém te estender um dedo sequer.
SaintBroken 21.06.11
terça-feira, 14 de junho de 2011
Breve alucinação
Eram as sombras breves que se destacavam, já fracas, no dia que anoitecia lá fora. Ele ali, de frente ao ecrã, envolto no frio que uma ou outra memória iam deixando sentir ficou, simplesmente. Em nada se soltava o pensamento e a cadeira inclinara-se lenta, calma e dura, quase estável até conseguir fechar os olhos. Seria bom pensar, ainda que entorpecido, entardecido talvez pela chuva que se sentia avizinhar. Três da manhã. “Seria bom pensar…” Adormecera.
Uma cavalgante alucinação. Inconsciente do seu rumo a saliva caía, escorrendo de um dos cantos da boca, pesada como ferro. Ele entraria na noite, esgrimindo os sonhos numa devassa luta até aos portões da manhã. A alucinação, por esta altura, respirava mais baixo, num tom suave, sangrando lentamente esta memória que aqui escreverei. Nada de mais extraordinário se passaria ali. O frio apertaria em coro com o tempo e a cadeira, dura, não sofreria movimento. A saliva, a dado ponto, achar-se-ia sem reposição numa boca que ia secando entre os oxigénios trocados nos pulmões. No meio de uma atmosfera quase informe, as palavras formaram-se no núcleo da sua mente e – sem que o soubesse – a alma encheu-se…
. Reparei que estava sentado. Tu, só, à frente dos meus olhos. Depois a conquista, o campo de visão aumentado. Mais pessoas, ainda que desvanecidas. Mas só tu estavas, numa exuberância belamente esculpida, nítida ao que parecia ser o preambulo de uma conversa. Conseguia ver-te, numa divisão qualquer do meu cérebro, tal como és: A tua face escavava um sentido mórbido de violência, fazia-se mostrar no orgulho de uma bênção divina, como se a tua cara, os contornos, os pormenores, as cicatrizes fossem – tal como são – detalhes de uma pintura. Nos teus olhos vinha o brilho que, ao alvorecer, fazias questão de reluzir quando o sol sossegado entrava no nosso quarto, ainda enfraquecido pela noite. Os cabelos deixavam-se cair dos ombros magnificamente, enrolavam-se em pequenos tufos nas pontas que, pela luz que entrava do vidro, floriam a mais justa das purezas. Íamos no metro, sentados frente a frente. Os teus olhos azuis olhavam-me sufocantes. Os teus lábios pequenos enclausuravam-se no teu pequeno silêncio. Estavas fria e dura tal como a cadeira e o ar fora da alma onde a saliva secara. Os meus olhos percorriam o teu rosto, fazia-o num traço pouco conhecido, um trilho por onde povos antigos se perderiam. Foi aqui que, cá fora, balbuciou um nome. Dentro, começaste a falar.
Em nada fazias sentido. Palavras desencontradas, desconexas, um turbilhão de sons que talvez fossem desterrados de um qualquer pedaço do meu cérebro. Nada se alterara por fora. Ele continuava-se e ia-se continuando, perdido no ventre da noite. Então, a importância vital do teu som destruiu-se. Começaste a inclinar-te. A distância ia diminuindo, uma emoção cardíaca fulminante trespassou, fraca, depois mais forte e mais forte. Um comboio de espasmos e convulsões concluíram-se naquela magia, aquela fonte de nutrição. Senti, como se a realidade fosse aquilo e não a cadeira ou o frio, senti tudo. Os lábios, o movimento gracioso do calor e das cores enrubescendo, as línguas a sujarem-se de sabor, as lâminas entroncando a excitação nas coxas. Tudo fazia sentido, tudo estava ali, no alcance que eu sempre quis. Já nada se dava por concreto, por informe, por imoral. Fizemo-lo, ali mesmo, o amor que outrora, nos reinos da glória, um rei poderia desejar. Um reino nosso, os nossos corpos juntos, enlaçados no meio do metro, numa cama que ia aparecendo. Éramos só nós. E chegava. Fora, uma repetição sussurrante de gemidos intensificou-se, e a saliva babava outra vez. Já fazia noite.
O metro desaparecera, era um quarto. Estavas em cima, cavalgando o prazer. Respiravas rápido, de boca entreaberta como que esperando um beijo do anjo que te fez. O teu cabelo selvático, a tua pele suada e os teus olhos serrados fechavam o nosso mundo ali, naquele momento, moldando o fim dos tempos àquilo, ao nosso amor, ao prazer de tantos séculos. Estávamos, obviamente, nus. Pele com pele, alma com alma. Diria que tinha passado dias naquela alucinação. Naquele beijo e naquele sexo. Naquele tudo que começou a desvanecer.
Uma claridade súbita, um branco agressivo a desfocar a realidade. Tu já tinhas ido, não sei para onde, mas foste, tal como vieste ou como te trouxeram – nua.
Acordou ofegante. A camisola encerrava-se no suor da pele, a saliva, essa, molhara já os calções. Foi aqui, tão suave como entardecido, que justificou o sonho na excitação que passara de dentro para fora. Assinou um prazer que, vivido na alma, sangrou na carne. Um prazer tão forte que voou entre dois mundos distintos, falsos entre si: um branco leitoso espalhava-se nos calções. Só isso, e ele sorriu. Os portões da manhã tinham chegado.
…e pensou: “Felizmente chegaram no seu tempo.”
Uma cavalgante alucinação. Inconsciente do seu rumo a saliva caía, escorrendo de um dos cantos da boca, pesada como ferro. Ele entraria na noite, esgrimindo os sonhos numa devassa luta até aos portões da manhã. A alucinação, por esta altura, respirava mais baixo, num tom suave, sangrando lentamente esta memória que aqui escreverei. Nada de mais extraordinário se passaria ali. O frio apertaria em coro com o tempo e a cadeira, dura, não sofreria movimento. A saliva, a dado ponto, achar-se-ia sem reposição numa boca que ia secando entre os oxigénios trocados nos pulmões. No meio de uma atmosfera quase informe, as palavras formaram-se no núcleo da sua mente e – sem que o soubesse – a alma encheu-se…
. Reparei que estava sentado. Tu, só, à frente dos meus olhos. Depois a conquista, o campo de visão aumentado. Mais pessoas, ainda que desvanecidas. Mas só tu estavas, numa exuberância belamente esculpida, nítida ao que parecia ser o preambulo de uma conversa. Conseguia ver-te, numa divisão qualquer do meu cérebro, tal como és: A tua face escavava um sentido mórbido de violência, fazia-se mostrar no orgulho de uma bênção divina, como se a tua cara, os contornos, os pormenores, as cicatrizes fossem – tal como são – detalhes de uma pintura. Nos teus olhos vinha o brilho que, ao alvorecer, fazias questão de reluzir quando o sol sossegado entrava no nosso quarto, ainda enfraquecido pela noite. Os cabelos deixavam-se cair dos ombros magnificamente, enrolavam-se em pequenos tufos nas pontas que, pela luz que entrava do vidro, floriam a mais justa das purezas. Íamos no metro, sentados frente a frente. Os teus olhos azuis olhavam-me sufocantes. Os teus lábios pequenos enclausuravam-se no teu pequeno silêncio. Estavas fria e dura tal como a cadeira e o ar fora da alma onde a saliva secara. Os meus olhos percorriam o teu rosto, fazia-o num traço pouco conhecido, um trilho por onde povos antigos se perderiam. Foi aqui que, cá fora, balbuciou um nome. Dentro, começaste a falar.
Em nada fazias sentido. Palavras desencontradas, desconexas, um turbilhão de sons que talvez fossem desterrados de um qualquer pedaço do meu cérebro. Nada se alterara por fora. Ele continuava-se e ia-se continuando, perdido no ventre da noite. Então, a importância vital do teu som destruiu-se. Começaste a inclinar-te. A distância ia diminuindo, uma emoção cardíaca fulminante trespassou, fraca, depois mais forte e mais forte. Um comboio de espasmos e convulsões concluíram-se naquela magia, aquela fonte de nutrição. Senti, como se a realidade fosse aquilo e não a cadeira ou o frio, senti tudo. Os lábios, o movimento gracioso do calor e das cores enrubescendo, as línguas a sujarem-se de sabor, as lâminas entroncando a excitação nas coxas. Tudo fazia sentido, tudo estava ali, no alcance que eu sempre quis. Já nada se dava por concreto, por informe, por imoral. Fizemo-lo, ali mesmo, o amor que outrora, nos reinos da glória, um rei poderia desejar. Um reino nosso, os nossos corpos juntos, enlaçados no meio do metro, numa cama que ia aparecendo. Éramos só nós. E chegava. Fora, uma repetição sussurrante de gemidos intensificou-se, e a saliva babava outra vez. Já fazia noite.
O metro desaparecera, era um quarto. Estavas em cima, cavalgando o prazer. Respiravas rápido, de boca entreaberta como que esperando um beijo do anjo que te fez. O teu cabelo selvático, a tua pele suada e os teus olhos serrados fechavam o nosso mundo ali, naquele momento, moldando o fim dos tempos àquilo, ao nosso amor, ao prazer de tantos séculos. Estávamos, obviamente, nus. Pele com pele, alma com alma. Diria que tinha passado dias naquela alucinação. Naquele beijo e naquele sexo. Naquele tudo que começou a desvanecer.
Uma claridade súbita, um branco agressivo a desfocar a realidade. Tu já tinhas ido, não sei para onde, mas foste, tal como vieste ou como te trouxeram – nua.
Acordou ofegante. A camisola encerrava-se no suor da pele, a saliva, essa, molhara já os calções. Foi aqui, tão suave como entardecido, que justificou o sonho na excitação que passara de dentro para fora. Assinou um prazer que, vivido na alma, sangrou na carne. Um prazer tão forte que voou entre dois mundos distintos, falsos entre si: um branco leitoso espalhava-se nos calções. Só isso, e ele sorriu. Os portões da manhã tinham chegado.
…e pensou: “Felizmente chegaram no seu tempo.”
domingo, 5 de junho de 2011
Flor negra
Sente-se as frinchas cortadas quando o cérebro se esvazia.
Sente-se o sangue coagulado debaixo da pele e as explosões fugazes das paixões a desvanecerem, gritos negros de fraco líquido sanguíneo.
Sentem-se as flâmulas da morte insone que me foste dando no meio das palavras, esgotos contaminando as minhas veias como quem acha um decapitado.
Sente-se a tua voz estridente incendiando os luares que deixaram de existir.
Sente-se a frívola dor do pesadelo que enxertaste violentamente em mim, que prometeste não deixar cair em cancros forçados, sentimentos arranhados pela lâmina com que me desfizeste.
Sente-se em todos os lados escuros o teu álcool grosso, os teus ranhos congelantes, as cinzas que tornas os humanos.
Sente-se a morte lenta a afogar os sonhos e os universos falsos entre as tuas coxas e os teus lábios.
Sente-se a tua língua mole, quase morta, a contorcer-se entre os pensamentos frios e duros dos homens.
Sente-se a ti, só isso, a passar no obscuro de cada cérebro inteligente e matá-lo nos sorrisos dos monstros, na brancura dos teus dentes canibais.
Sente-se a tua voz como serras que mutilem ossos e lágrimas.
Sinto-te, tão bem como sinto o meu coração a derreter no sangue coalhado dos loucos.
Sinto-te como quem sente os infernos cervejando a glória dos diabos…
…e, mesmo assim, vou-me lembrando de flores.
Saintbroken 5.6.11
Sente-se o sangue coagulado debaixo da pele e as explosões fugazes das paixões a desvanecerem, gritos negros de fraco líquido sanguíneo.
Sentem-se as flâmulas da morte insone que me foste dando no meio das palavras, esgotos contaminando as minhas veias como quem acha um decapitado.
Sente-se a tua voz estridente incendiando os luares que deixaram de existir.
Sente-se a frívola dor do pesadelo que enxertaste violentamente em mim, que prometeste não deixar cair em cancros forçados, sentimentos arranhados pela lâmina com que me desfizeste.
Sente-se em todos os lados escuros o teu álcool grosso, os teus ranhos congelantes, as cinzas que tornas os humanos.
Sente-se a morte lenta a afogar os sonhos e os universos falsos entre as tuas coxas e os teus lábios.
Sente-se a tua língua mole, quase morta, a contorcer-se entre os pensamentos frios e duros dos homens.
Sente-se a ti, só isso, a passar no obscuro de cada cérebro inteligente e matá-lo nos sorrisos dos monstros, na brancura dos teus dentes canibais.
Sente-se a tua voz como serras que mutilem ossos e lágrimas.
Sinto-te, tão bem como sinto o meu coração a derreter no sangue coalhado dos loucos.
Sinto-te como quem sente os infernos cervejando a glória dos diabos…
…e, mesmo assim, vou-me lembrando de flores.
Saintbroken 5.6.11
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Doença
Era de noite e estávamos, simplesmente. Sozinhos no termo de um capítulo, uma ausência do interno que nos rouba os dias. As noites, essas, passam-se no frio de um quarto…, no vazio de não te ter do lado. Éramos ali, os dois, passada a discussão, como ninguéns servidos, como dias esquecidos. Gritámos e de repente arrependo-me. É demasiado forte a bala que me trespassaste pelo órgão a que antes chamava coração. O nada persiste entre nós como ventos fugidos, lagares monótonos, frases por dizer…
Apesar do silêncio, das lágrimas que em mim caíam, do teu rosto calado, éramos, inconscientemente, um do outro. A traição que convidaste para o espaço a que chamávamos nosso, mata, inevitavelmente. Mas ias continuando ali, depois de tudo o que te disse, quieta. Nas janelas o futuro encravava-se entre o frio, e a lua congelava-nos o sentimento. Uma pequena camada de suor cobria-me mas tu…nada. Eras como sempre foste. Distante, perdida como os passados de outrora, …linda e encantadora. Dei comigo a lembrar os dias em que nos abraçávamos e dávamos às bocas o pecado perfeito, aquele desejo contínuo e insaciável, o instinto quase animal de nos querermos. Tão frivolamente me lembrei que sorri. E tu também. No meio de caras molhadas e enrubescidas estávamos, agora, juntos até nos ossos. Porque até aí mexes comigo, debaixo da pele, nos músculos. Fazias-me agora (como antes fazias) doente por ti. Uma doença a que vou gostando de chamar paixão. O suor começara a notar-se. Mais ainda quando reparo que, em baixo, já a excitação se instalara. Tu mantinhas o sorriso, e avançaste então. O chão era-te tão coordenado, tão salutarmente combinado, que doía. Dói só de pensar que acho o chão mais bonito porque andas nele. Dói pensar que estás na mesma sala do que eu, no mesmo espaço respirável. És como sempre foste, com todos os defeitos que me nasceram nos olhos, mas desejo-te. A ti e ao teu corpo. Tu, minha, só! E fiquei quieto à tua espera, a língua preparada para te arrancar esse sabor, os braços contraídos para te abraçar quase ao sufoco. Queria-te e continuavas a vir. Já não sentia as lágrimas, nem o nojo do suor ou o motivo porque estávamos ali. Perdi-me no meio de um cérebro em ebulição sensitiva, enfraquecido quando todas as moléculas explodiam. Tu parecias sempre igual, entre passos pequenos, pequenas porções de perfeição. “Vem e deixa-me devorar-te…!”
Paras…de repente. Pegas na mala, no casaco e sais. Nada dizes, nada fazes, só isso. Sais.
Aproximei-me da janela e vejo-te lá em baixo, com a mesma rapidez com que saíste. Engraçado que continuavas a sorrir. O destino levou-te a brancura dos dentes e os passos pela rua acima, ao de encontro com um vulto qualquer. Paras, e ele também. Abraçam-se, e, ao longe, fez-se nos meus olhos a imagem de vos ver, um beijo suave a percorrer-vos nos lábios. Tiraram de mim, assim sem pena, o que antes chamava vida. E ficariam ali, os dois, talvez mais tempo... Sei que fechei a janela.
…felizmente que a minha carabina funciona. Felizmente que ainda tenho nos dedos a força para montar as letras, e na mente a memória do que fizeste.
…infelizmente para ti, quando leres isto, já o teu erro te consumiu. Já pelos meus dedos (e pelas mãos de outros) se fez da traição pecado consumado. Já, inevitavelmente, está o teu amante morto. Como não sei, não quero saber. O seu sangue jorra, ou talvez nas veias lhe percorra outro qualquer líquido, ou não. Morto, é o que importa.
Um beijo,
O teu eterno marido.
Ps: talvez devas considerar voltar para casa, meu amor?
Fábio in 25.05.11
Apesar do silêncio, das lágrimas que em mim caíam, do teu rosto calado, éramos, inconscientemente, um do outro. A traição que convidaste para o espaço a que chamávamos nosso, mata, inevitavelmente. Mas ias continuando ali, depois de tudo o que te disse, quieta. Nas janelas o futuro encravava-se entre o frio, e a lua congelava-nos o sentimento. Uma pequena camada de suor cobria-me mas tu…nada. Eras como sempre foste. Distante, perdida como os passados de outrora, …linda e encantadora. Dei comigo a lembrar os dias em que nos abraçávamos e dávamos às bocas o pecado perfeito, aquele desejo contínuo e insaciável, o instinto quase animal de nos querermos. Tão frivolamente me lembrei que sorri. E tu também. No meio de caras molhadas e enrubescidas estávamos, agora, juntos até nos ossos. Porque até aí mexes comigo, debaixo da pele, nos músculos. Fazias-me agora (como antes fazias) doente por ti. Uma doença a que vou gostando de chamar paixão. O suor começara a notar-se. Mais ainda quando reparo que, em baixo, já a excitação se instalara. Tu mantinhas o sorriso, e avançaste então. O chão era-te tão coordenado, tão salutarmente combinado, que doía. Dói só de pensar que acho o chão mais bonito porque andas nele. Dói pensar que estás na mesma sala do que eu, no mesmo espaço respirável. És como sempre foste, com todos os defeitos que me nasceram nos olhos, mas desejo-te. A ti e ao teu corpo. Tu, minha, só! E fiquei quieto à tua espera, a língua preparada para te arrancar esse sabor, os braços contraídos para te abraçar quase ao sufoco. Queria-te e continuavas a vir. Já não sentia as lágrimas, nem o nojo do suor ou o motivo porque estávamos ali. Perdi-me no meio de um cérebro em ebulição sensitiva, enfraquecido quando todas as moléculas explodiam. Tu parecias sempre igual, entre passos pequenos, pequenas porções de perfeição. “Vem e deixa-me devorar-te…!”
Paras…de repente. Pegas na mala, no casaco e sais. Nada dizes, nada fazes, só isso. Sais.
Aproximei-me da janela e vejo-te lá em baixo, com a mesma rapidez com que saíste. Engraçado que continuavas a sorrir. O destino levou-te a brancura dos dentes e os passos pela rua acima, ao de encontro com um vulto qualquer. Paras, e ele também. Abraçam-se, e, ao longe, fez-se nos meus olhos a imagem de vos ver, um beijo suave a percorrer-vos nos lábios. Tiraram de mim, assim sem pena, o que antes chamava vida. E ficariam ali, os dois, talvez mais tempo... Sei que fechei a janela.
…felizmente que a minha carabina funciona. Felizmente que ainda tenho nos dedos a força para montar as letras, e na mente a memória do que fizeste.
…infelizmente para ti, quando leres isto, já o teu erro te consumiu. Já pelos meus dedos (e pelas mãos de outros) se fez da traição pecado consumado. Já, inevitavelmente, está o teu amante morto. Como não sei, não quero saber. O seu sangue jorra, ou talvez nas veias lhe percorra outro qualquer líquido, ou não. Morto, é o que importa.
Um beijo,
O teu eterno marido.
Ps: talvez devas considerar voltar para casa, meu amor?
Fábio in 25.05.11
quarta-feira, 13 de abril de 2011
...momentum...
Há coisas que fogem para longe
Com os nossos sonhos agarrados
Crimes em templos de monge
Os nossos Invernos enlaçados.
Aprendo contigo palavras que não sei
A melodia da música impossível
Como medos daquilo que errei
Que passando, faz-se inesquecível.
E ainda existem dias incontáveis
Perdidos no cinzento do Outono
Chuva nas mãos, beijos incansáveis
Estrela que me tira o sono.
Roubando os escudos de aço
Que só agora acredito existirem
Protecções fugazes no abraço
Que amaste sem outros rirem.
Quando passo por ti, vejo o fogo
O hectare que escolheste queimar
O único espaço em mim que rogo
Não perder, ter e não mostrar.
E se disserem que o vento nos ouviu
Foi a ilusão da tua ausência
A única lembrança que surgiu
Um único mundo sem violência.
Quando a natureza te construiu
Fez-se no limite de seres perfeita
Foi a primeira vez que o mundo ruiu
…tentando perceber de que és feita.
13.04.2011
Com os nossos sonhos agarrados
Crimes em templos de monge
Os nossos Invernos enlaçados.
Aprendo contigo palavras que não sei
A melodia da música impossível
Como medos daquilo que errei
Que passando, faz-se inesquecível.
E ainda existem dias incontáveis
Perdidos no cinzento do Outono
Chuva nas mãos, beijos incansáveis
Estrela que me tira o sono.
Roubando os escudos de aço
Que só agora acredito existirem
Protecções fugazes no abraço
Que amaste sem outros rirem.
Quando passo por ti, vejo o fogo
O hectare que escolheste queimar
O único espaço em mim que rogo
Não perder, ter e não mostrar.
E se disserem que o vento nos ouviu
Foi a ilusão da tua ausência
A única lembrança que surgiu
Um único mundo sem violência.
Quando a natureza te construiu
Fez-se no limite de seres perfeita
Foi a primeira vez que o mundo ruiu
…tentando perceber de que és feita.
13.04.2011
terça-feira, 15 de março de 2011
Re-sonhar
Tentava ver o mar
Escondido atrás do mundo
Ilusão cega, vírus no ar
Solidão toda num segundo.
Jamais um som perdido
Apenas meu, minha terra
Uma palavra, um grunhido
Uma batalha sem guerra.
Um corpo farto de nome
Um nome cheio de nada
Os amanhãs longe na fome
Os ontens fora da estrada.
Ofegante até chegar a noite
Distante, sem fim à vista
Via a estrela à meia-noite
Pequena, cadente, exorcista.
Mas sentia-te, a dormir
Como quem fala em segredo
Lembrar-me de ti a esculpir
Um silêncio, um chão, um enredo.
E dizem-me que enlouqueço
Uma voz vestida de glória
Uma catapulta de arremesso
Trovão gritante de vitória.
Ondas a partirem o medo
De estar com a porta fechada
Um dia que acorda cedo
Tu ao meu lado, mais nada.
E sussurras-me a sorrir
Como velhos cantam histórias
Lembrar-me de ti a esculpir
Lugares nossos, eternas memórias…
…
…
…
…Onde me procuro
…Onde sou pecado
…Onde sinto o duro
…De ser eu, apaixonado…
Escondido atrás do mundo
Ilusão cega, vírus no ar
Solidão toda num segundo.
Jamais um som perdido
Apenas meu, minha terra
Uma palavra, um grunhido
Uma batalha sem guerra.
Um corpo farto de nome
Um nome cheio de nada
Os amanhãs longe na fome
Os ontens fora da estrada.
Ofegante até chegar a noite
Distante, sem fim à vista
Via a estrela à meia-noite
Pequena, cadente, exorcista.
Mas sentia-te, a dormir
Como quem fala em segredo
Lembrar-me de ti a esculpir
Um silêncio, um chão, um enredo.
E dizem-me que enlouqueço
Uma voz vestida de glória
Uma catapulta de arremesso
Trovão gritante de vitória.
Ondas a partirem o medo
De estar com a porta fechada
Um dia que acorda cedo
Tu ao meu lado, mais nada.
E sussurras-me a sorrir
Como velhos cantam histórias
Lembrar-me de ti a esculpir
Lugares nossos, eternas memórias…
…
…
…
…Onde me procuro
…Onde sou pecado
…Onde sinto o duro
…De ser eu, apaixonado…
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Brilho dos luares
O dia saía do céu tardio, ainda fraco. Entre ventos frios eles ficavam, sentados juntos, partilhando um qualquer calor mais especial. Ficavam-se por ali a falar sossegados, debitando-se sobre eles a vontade de um universo mais puro. Com a atenção suficiente era possível sentir a quietude da cidade, sem barulhos, sem realidade. Eram eles ali. Mais nada. O silêncio da aragem.
Ela chegou-se mais perto então. Os seus olhos atlânticos escorreram sobre ele um desenho falsiforme, um traço sem rota definida como alguém que se perde no caminho. Querer vê-lo inteiro num só olhar sem centro focado levou-a a completar-lhe um beijo na bochecha barbuda. Depois outro, e outro. Cada vez mais próximo dos lábios…Ele ficava-se a recebê-los entre a aragem calada. Entretia-se com um ponto qualquer no infinito. Ocupava a mente com o nada. Parado, forçava os nervos faciais, sentindo de cada beijo o mais possível. Tê-los como garantia vital, como bem essencial. Porque fosse o planeta verdade, fosse tudo real e certo…ser quem eram, ali, construía a ponte para um mundo mais forte. Um mundo onde o núcleo gravitava em cada beijo, em cada respiração.
Ela chegou-se mais perto dele, agora com os olhos serrados. Saboreou-lhe o canto da boca. Aquela quase nula presença labial forçou-o a torcer-se, fitá-lo e olharem-se por um segundo. Um segundo apenas. E já não fazia frio. Não fazia coisa nenhuma. Só aquilo. Um segundo para se arrancarem um do outro.
Sem saberem já os seus lábios se agarravam. Colhiam do outro um beijo cheio, possuído por uma espécie de poder superior. Ele recolheu-a a si, abraçou-a suavemente e uniu-a consigo. Parecia ter de o fazer para sentir mais dela. Testemunhar a sua existência quase surreal, duvidosa até. A aragem era calada. O silêncio de tudo…
Permaneceram abraçados. Continuavam o beijo, encruzilhados um pelo outro. Faziam-se mutuamente; ele recolhendo-a nos lábios, ela deixando-se recolher. Ás vezes paravam, olhavam-se um pouco, e beijavam-se outra vez no meio de um sorriso sublime. Cada vez mais chegados, mais agarrados, como se faltasse sempre um pedaço do outro por sentir.
Alguns, passando por ali, comentavam baixinho em palavras difíceis de apanhar. Franziam a testa num pormenor desconfortável de visão enquanto eles se aqueciam do vento. Chovera naquele dia cinzento…
Tinham os olhos fechados mansamente quando ela o beijou mais dentro. Ele sorrira numa surdina tímida, e correspondera. Ficou-lhe com os lábios e a boca e cada respiração parecia trazer um perfume desvanecido no ar. Uma língua massajava a outra envolvidas num fluido dócil e fortificante. Um beijo às vezes interrompido por um misterioso inclinar de cabeças. Os narizes cruzavam-se, deformavam-se e voltavam a ser quem eram no meio de um vento mais forte.
Ele parou. Atirou-se numa equação incompreendida, perguntava sobre algo sem saber do momento. A solução fora minutos mais tarde encontrada na língua dela, irrompendo das letras inconscientemente, silvando em respostas ineficazes. Fê-lo chamando a si a beleza do movimento, continuando o beijo numa ternura só traduzida num idioma conhecido por ambos. Ele apertou-a contra si, calmamente, apenas o suficiente para os narizes se voltarem a cruzar.
Passara meia hora. As bocas humedeciam-se, perdidas entre gestos suspensos. Algo crescia ali. Sem dor, sem consciência, como duas almas fundidas num prazer quase perfeito. Ao longe alguém olhava por sobre o ombro; mais perto, um casal de namorados fitava-os, indeléveis, quase com inveja. Pararam. Iam-se afundando no olhar do outro, uma prisão para um coração com mais um detalhe, mais uma feição. Ela aproximara-se. Testa, bochecha, depois a outra. O nariz, o queixo. Beijos pequenos crepitando nele numa satisfação instantânea. Beijos como pequenas cirurgias plásticas…
Estavam sentados ainda. Ela sobre ele. Depois sorriam. Apreciavam os dentes do outro, pormenores de brancura exacta. Arrebataram mais um beijo, levantaram-se e desvaneceram no horizonte encardido da cidade. Dois vultos intensos. Caminhavam abraçados, desnudados um com o outro, mão com mão, um só no meio do vento.
Arcanjos caídos, esquecidos depois…
A aragem calada desaparecera com eles…porque minutos mais tarde…começara a chover.
9.11.2010
Ela chegou-se mais perto então. Os seus olhos atlânticos escorreram sobre ele um desenho falsiforme, um traço sem rota definida como alguém que se perde no caminho. Querer vê-lo inteiro num só olhar sem centro focado levou-a a completar-lhe um beijo na bochecha barbuda. Depois outro, e outro. Cada vez mais próximo dos lábios…Ele ficava-se a recebê-los entre a aragem calada. Entretia-se com um ponto qualquer no infinito. Ocupava a mente com o nada. Parado, forçava os nervos faciais, sentindo de cada beijo o mais possível. Tê-los como garantia vital, como bem essencial. Porque fosse o planeta verdade, fosse tudo real e certo…ser quem eram, ali, construía a ponte para um mundo mais forte. Um mundo onde o núcleo gravitava em cada beijo, em cada respiração.
Ela chegou-se mais perto dele, agora com os olhos serrados. Saboreou-lhe o canto da boca. Aquela quase nula presença labial forçou-o a torcer-se, fitá-lo e olharem-se por um segundo. Um segundo apenas. E já não fazia frio. Não fazia coisa nenhuma. Só aquilo. Um segundo para se arrancarem um do outro.
Sem saberem já os seus lábios se agarravam. Colhiam do outro um beijo cheio, possuído por uma espécie de poder superior. Ele recolheu-a a si, abraçou-a suavemente e uniu-a consigo. Parecia ter de o fazer para sentir mais dela. Testemunhar a sua existência quase surreal, duvidosa até. A aragem era calada. O silêncio de tudo…
Permaneceram abraçados. Continuavam o beijo, encruzilhados um pelo outro. Faziam-se mutuamente; ele recolhendo-a nos lábios, ela deixando-se recolher. Ás vezes paravam, olhavam-se um pouco, e beijavam-se outra vez no meio de um sorriso sublime. Cada vez mais chegados, mais agarrados, como se faltasse sempre um pedaço do outro por sentir.
Alguns, passando por ali, comentavam baixinho em palavras difíceis de apanhar. Franziam a testa num pormenor desconfortável de visão enquanto eles se aqueciam do vento. Chovera naquele dia cinzento…
Tinham os olhos fechados mansamente quando ela o beijou mais dentro. Ele sorrira numa surdina tímida, e correspondera. Ficou-lhe com os lábios e a boca e cada respiração parecia trazer um perfume desvanecido no ar. Uma língua massajava a outra envolvidas num fluido dócil e fortificante. Um beijo às vezes interrompido por um misterioso inclinar de cabeças. Os narizes cruzavam-se, deformavam-se e voltavam a ser quem eram no meio de um vento mais forte.
Ele parou. Atirou-se numa equação incompreendida, perguntava sobre algo sem saber do momento. A solução fora minutos mais tarde encontrada na língua dela, irrompendo das letras inconscientemente, silvando em respostas ineficazes. Fê-lo chamando a si a beleza do movimento, continuando o beijo numa ternura só traduzida num idioma conhecido por ambos. Ele apertou-a contra si, calmamente, apenas o suficiente para os narizes se voltarem a cruzar.
Passara meia hora. As bocas humedeciam-se, perdidas entre gestos suspensos. Algo crescia ali. Sem dor, sem consciência, como duas almas fundidas num prazer quase perfeito. Ao longe alguém olhava por sobre o ombro; mais perto, um casal de namorados fitava-os, indeléveis, quase com inveja. Pararam. Iam-se afundando no olhar do outro, uma prisão para um coração com mais um detalhe, mais uma feição. Ela aproximara-se. Testa, bochecha, depois a outra. O nariz, o queixo. Beijos pequenos crepitando nele numa satisfação instantânea. Beijos como pequenas cirurgias plásticas…
Estavam sentados ainda. Ela sobre ele. Depois sorriam. Apreciavam os dentes do outro, pormenores de brancura exacta. Arrebataram mais um beijo, levantaram-se e desvaneceram no horizonte encardido da cidade. Dois vultos intensos. Caminhavam abraçados, desnudados um com o outro, mão com mão, um só no meio do vento.
Arcanjos caídos, esquecidos depois…
A aragem calada desaparecera com eles…porque minutos mais tarde…começara a chover.
9.11.2010
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Tosse poética
Faz noite e faz frio
Faz-se o vento feroz.
Fazem silêncios no vazio
Desfaz-se o mundo de nós.
Gritam-se universos na chuva
e nos gritos chove o nada;
Caem folhas mortas da lua,
Estações sós, erros de fada.
Somos o sentido do saltério,
a sombra breve dos enfados.
Porque são memória, mistério,
os nossos desejos, abraçados.
E ficamos, perdidos assim,
liquefeitos, urnas sentidas;
Memórias misturadas em mim
e, silêncio, ficaram unidas.
Então acordo, partido e só.
Ouço o vento forte ou unido;
Mais nada, só sombra, pó;
Estive morto e fez sentido.
18.10.10
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
chamam-lhe pensamento...pensamento nulo...
Aqueço.
Sinto-me a arrepiar ao montar o teu nome na língua. Há qualquer coisa de diferente no lugar onde construíram o nome dela. Uma magia esquecida, uma linha de realeza há muito ignorada, um feitiço talvez. Mas ignoro. Digo que não é nada para ver se entra. E outra vez…
O arrepio continua lá. Acredito que se olhares para o meu pescoço o vês.
Fico quente.
Continuo a aquecer.
Sem ela vejo-me incapaz. Sem ela não me sou completo, não injecto a alegria num riso com a facilidade que tinha. Sei que tenho facilidade em prosseguir. Sei que se te esquecer conseguirei ver o horizonte mais focado, um centro mais definido na esfera falsiforme que vai sendo a minha vida… Mas sei que se te esqueço, nunca mais te lembro. E eu gosto de me lembrar da ofegância dos sonhos. Mas mais do que isso, do que eles significavam. Que ainda que me custasse engolir durante um dia inteiro, tinha uma espécie de paz, uma espécie de coisa boa que me fazia lembrar outra vez de ti. Que ainda que doesse, sabia que era por tua causa. Que ainda que sofrer, me dava um poder mítico qualquer de dominar o meu corpo. Dominá-lo com a construção perfeita do teu nome. Dominar-me com ela… Dominar-me!
Pequena fervura.
Há quem diga que sofrer é bom porque constrói as pessoas. Dizem esses que a personalidade é um fruto de sofrimentos. Pois eu acho que estão mal. Sofrer é partir a personalidade. É humanizá-la. Nascemos como somos. Nascemos perfeitos, intocáveis. No entanto é o sofrimento que nos faz humanos ou então não seríamos mais do que um cão. Mais do que um animal.
É assim que me vejo. Vejo-me a sofrer por causa dela. Saber que ela me parte várias peças do corpo. Saber que sem ela não me junto, não me dou como um ser único, como uma personalidade conjunta, concreta em si, funcional. Ostento portanto a ansiedade continua de a ver. De te ver como vejo nos meus sonhos, onde existes de uma forma interna, dentro de um cérebro a que chamo meu. Saber que és tu, livre de domínio mas dentro de mim. Compreender que, à noite, antes de adormecer, me arrepia o pescoço porque começo a lembrar-me de ti. E caem as lágrimas, sujam a almofada da dor que vou carregando. Uma espécie de osmose sentimental ao lembrar que talvez sejam os teus olhos espelhos literais da minha imagem, como a água que emana das montanhas que choram lá longe, num mundo à parte. Um mundo onde se constroem pessoas perfeitas. Um mundo de nomes iguais e desiguais na perfeição. Um planeta onde só existimos eu e tu, juntos e separados em domínio e existência, um pensamento desfocado. Uma noite mergulhada num subconsciente bom e lacrimejante. Uma espécie de coisa irreal. Um sonho…o meu sonho contigo! Porque ela é para mim como um suco divino, é-me um entrelaçar de dedos num caminho entre pinheiros, uma estrada nossa, imperfeita e transviada de sentido. Talvez seja isso que a faz especial. Talvez seja essa estrada sinuosa que a faz tão vertical, tão perfeitamente humanizada. Tão minha como eu queria que fosse.
Ebulição
E continuo a querer-te perto, a precisar de ti para respirar normalmente. Há muito que guardo um ar para respirarmos os dois, juntos e unidos, mas vai-se esvaziando, explodindo ou implodindo assim, entre nós…no meio de mim. E tenho algo nas células, uma doença congénita, crónica ou aguda qualquer que me vai comendo o norte. Um apertar de pescoço, um sufocar de cérebro onde a tua imagem desvanece. Mas luto, e tenho forças incontáveis para repelir o pensamento. Hordas de lembranças, arrepios e sonhos perfuram a minha doença. A doença a que chamei saudade. Porque viajo sem norte num mar furioso. Sinto-a oceânica então, a engolir a distância que nos separa. Caramba! Odeio o meu coração fraco. Matá-lo-ia se não dependesse da sua incompetência, e onde cada inspiração faço-a aos solavancos entremeada no seu nome perfeito. Um contaminar do oxigénio que engulo a cada segundo, esse, o das letras que dão vida ao meu pescoço.
Respiro-te. Agora até a minha respiração, um sistema que não controlo, de que necessito para que cada célula doente viva, até isso já te pertence. Eu, que tinha medo de me lembrar dela faço-o agora, inconsciente do que me podia salvar, inteirado na perdição perfeita onde existo neste momento. Uma ebulição de pensamentos sobre ti, memórias de beijos e abraços silenciosos onde quem nos fala são o vento e as sua sombras. Assim, abraçado a ela, vejo-me hipertónico. Porque até um toque superficial é capaz de dar voltas no estômago a que já não chamo meu. Agora nada é meu quando me agrilhoo nos teus braços, na vida que magicamente o teu nome é capaz de criar, de subscrever, de sublinhar em mim, na minha pele e nos nervos que ascendem ao meu cérebro. Talvez seja por isso que sonho com ela. Talvez…mas não sei. Nada é certo.
Estou perdido numa coisa que sei o que é, que sei como fugir. Numa coisa a que consigo escapar. Mas, ironicamente, contra tudo o que a História ditou de homens inteligentes, comandantes vorazes, imperadores e conquistadores…eu, simplesmente, não quero. Talvez goste demasiado da estrada sinuosa se entrarmos nela assim, com os dedos encruzilhados. Afinal de contas, vai sendo ladeada pelos pinheiros que testemunharam isso mesmo, as nossas mãos a unirem-se. A juntarem-se, partes dos nossos corpos, assim…livres do nosso domínio. E ainda falava eu em dominar-me a pensar em ti. Em dominar-me quando me doía a garganta. Louco e néscio me sinto agora quando se esgotam as letras para falar da minha doença. Mas, acima do mundo e do universo e acima de tudo o resto que possa existir para lá disso, esgota-se em mim a paciência, o espírito de resignação. E fico-me, assim, agora, no fim disto onde ponho as letras, e com fraqueza em meter aqui as tuas. São demasiadas e demasiado perfeitas. Têm demasiada dose de plenitude em cada milímetro que as constitui.
…faltam-me as…forças…quero apen…penas…dizer, que…que te… (suspiro)
Arrefeço
Fico quente.
Fico frio.
Gélido.
E volto a aquecer…
6.10.2010

Fotografia de Miguel Maciel
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
querida nuvem
Talvez tenham os teus olhos visto o ar cá em baixo a escurecer os dias. Como a noite que prolonga os caminhos e a estrada não dá conta.
As árvores desnudam-se e calcam as folhas com ramos cheios de nada.
Trago na cabeça qualquer coisa esvaziada, como se trouxesse a dor de não-ser. Pois talvez fossem os olhos mais recheados do mesmo que molha o coração, ou a língua não secasse como a pele que pelo frio se envergonha de mim. E continua e arranca-se a pele do que tenho dentro de mim e que sou eu - um ferro quebradiço, enferrujado como o vento que assobia.
Tu aí em cima, que cobres com véus o mundo, ilumina-me de contraste, de coisas diferentes…ou simplesmente contorna-me com os marcadores que fecham o infinito. Porque me falta saliva para pensar e vontade de falar. Porque o mel me escurece as veias como as noites ventosas. Como noites me tenho sentido, assim, escuro e vazio, gélido como os cometas que talvez existam.
Os meus dedos enfraquecem quando te escrevo, ó nuvem alta! Peço-te que não me lances demoras nem tempos imprevistos porque parei de dar horas. Não me lances chuvas de memórias cinzentas talvez pintadas pela saudade que já põe distancia no meio de nós.
Nuvem que te penduras no céu, deixa-te molhar pela estrela que guarda o meu caminho, deixa-te atravessar pelo sol que me faz falta…não quero ficar cá em baixo, no mesmo sítio, até que me faltem as páginas da alma…
04.03.2010
As árvores desnudam-se e calcam as folhas com ramos cheios de nada.
Trago na cabeça qualquer coisa esvaziada, como se trouxesse a dor de não-ser. Pois talvez fossem os olhos mais recheados do mesmo que molha o coração, ou a língua não secasse como a pele que pelo frio se envergonha de mim. E continua e arranca-se a pele do que tenho dentro de mim e que sou eu - um ferro quebradiço, enferrujado como o vento que assobia.
Tu aí em cima, que cobres com véus o mundo, ilumina-me de contraste, de coisas diferentes…ou simplesmente contorna-me com os marcadores que fecham o infinito. Porque me falta saliva para pensar e vontade de falar. Porque o mel me escurece as veias como as noites ventosas. Como noites me tenho sentido, assim, escuro e vazio, gélido como os cometas que talvez existam.
Os meus dedos enfraquecem quando te escrevo, ó nuvem alta! Peço-te que não me lances demoras nem tempos imprevistos porque parei de dar horas. Não me lances chuvas de memórias cinzentas talvez pintadas pela saudade que já põe distancia no meio de nós.
Nuvem que te penduras no céu, deixa-te molhar pela estrela que guarda o meu caminho, deixa-te atravessar pelo sol que me faz falta…não quero ficar cá em baixo, no mesmo sítio, até que me faltem as páginas da alma…
04.03.2010
terça-feira, 28 de setembro de 2010
soldado
Uma lança parte-te ao meio, assim, suavemente. Ficaste ali a jorrar a tua vida, a pintar o chão de sangue enquanto o Sol subia vermelho. Nasciam em ti manchas pálidas do que te criou, da matéria que te atravessava. E as minhas palavras desvaneciam no teu tímpano, assim, entardecidas. A luz que trazia o crepúsculo murmurava numa língua proibida o teu destino, uma lembrança que o presente herdara dos Reis escondidos de outrora. Equação das mais imperfeitas, a equação de uma morte sonolenta, um exangue bélico onde a tua ofegância me misturava num imóvel movimento. Via-te ali, atingida, aconchegada à tua armadura ensopada, numa ternura digna da Estrela do Norte onde só se refugiam os planetas que não existem. Porque tu, amortecida e enevoada soltavas uma neblina invisível, um dócil fumo de vida. Ainda tinhas a espada agrilhoada nos dedos e o teu pulso permanecia firme. Tinhas as pernas contraídas tornando-te uma guerreira mesmo na morte…e mesmo contra a morte. Lutaste e eu assisti, e aplaudia de vez em quando, e assobiava também. Mas fraquejaste. Cedeste, e agora os teus dedos dissolviam a tua força para mim. Seguraste a minha mão num gesto fraco, olhaste-me e balbuciaste um idioma partido, desterrado de sentido ou anónimo. Fazias um esforço para as letras se montarem mas as tuas pernas estavam agora moles, e as manchas brancas tornavam-se numa treva única. Vi as lágrimas a embaciarem-te a vida, a clamarem por ajuda. Mas eu via-te parado, ali, assim, adormecido. Mexeste-te com mais força, ainda que não fosse suficiente para os músculos contraírem. Na verdade, mexeste apenas os olhos... Continuou o momento sem ter conclusão definida. Ficaste assim, a olhar-me enevoada, parada e imutável. Pensei em abraçar-te e fi-lo. Apesar da tua morte expiraste uma última vez, fora do alcance dos deuses ou da obscuridade, e eu senti-te perto. Nunca te abraçara. Nunca te beijara. Nunca sequer te vira àquela distância. Mas ali, no teu leito, vi-te como uma mãe vê um filho, como a lua vê o céu, como um trovão vê o relâmpago. Depois de te largar, pousei-te suavemente na relva ensanguentada, desembainhei a tua espada régia e furei o mundo com ela. Arranquei o meu elmo encimado pelo Cavalo Alado do Lado por Trás do Horizonte e fechei os dedos no punho invertido da lâmina. Lágrimas saíram, inventaram destinos venenosos ou vinganças inférteis, não sei. Sei que ali, assim, chorava. Estendeste-te naquela tua posição real à força do golpe e os teus domínios caíram na matéria que te atravessou e que te pertencia agora, para sempre. Ficaste e eu também.
Esperei que o exército dispersasse e, ali, assim, prestei o único tributo digno de ti. Desprendi o meu manto, arranquei a minha armadura do meu corpo e agradeci por te ter abraçado, minha Rainha.
28.09.10
Esperei que o exército dispersasse e, ali, assim, prestei o único tributo digno de ti. Desprendi o meu manto, arranquei a minha armadura do meu corpo e agradeci por te ter abraçado, minha Rainha.
28.09.10
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Onde estás?
O relógio marca as horas que não passam. As horas que espero por ti e não vens…
Encosto-me à parede branca e pálida de tanto absorver a tristeza da minha aura, a ansiedade de não vires, o meu pensamento sobre ti. No meio de todos estou eu, marcado por uma ausência desconcertante, desconfortável. Passam as horas e não vens…onde estás?
A dúvida abala-me e acende-me a inconsciência. Amo-te e não vens…amo-te e não estás… Penduro-me num sentimento leve e fluido, que se prolonga no tempo, num tempo que não sinto, num tempo que não passa porque não estás no tempo. Não estás sequer no espaço a desfrutar do tempo. Vives outro espaço e outro tempo distantes do meu, talvez felizes, talvez não, suficientes para me contrair à saudade no tempo e no espaço onde existo sozinho! Onde estás? Porque não vens?
As lágrimas transbordam-se pelos olhos e reduzem-se a vapor porque tenho medo de chorar. Tenho medo de ti, de dizer que te amo, de te amar! Quando estás tenho vergonha de te olhar directamente e, pelo canto do olho, me escapam pestanejares tímidos e incontroláveis que se esforçam para te ver, a ti, num momento concreto…agora que não estás, quero-te ver, olhar-te, saciar a minha fome em ti e na tua figura, na tua existência incómoda quase violenta que queima o meu coração!
Os momentos continuam sufocados pela tua materialidade ausente, como se a ausência de ti atrasasse os ponteiros do relógio. Sinto-me a deslizar por sensações cada vez mais estranhas e pressinto-me do outro lado, do lado mau da realidade, na inconsciência da tua vinda. Talvez um dia, a oportunidade de te olhar directamente os olhos seja tão constrangedora ao ponto de me sentir obrigado, forçado, a vomitar o que sinto por ti. Volta e marca a tua existência perto de mim. Força-me a sentir os escrúpulos saídos de mim para te olhar. Onde estás? Onde estás?
E tudo continua igual, eu aqui e tu lá, não sei bem onde porque não te vejo ou sinto. A igualdade do tempo que passa e do espaço que não acompanha, … é como um comboio, que foge imprevisto da estação mas que, pelo carril, se sente a sua presença, se ouve a sua existência, se anseia a sua volta.
Onde estás? Quando voltas?
Fábio in 23.03.2009
Encosto-me à parede branca e pálida de tanto absorver a tristeza da minha aura, a ansiedade de não vires, o meu pensamento sobre ti. No meio de todos estou eu, marcado por uma ausência desconcertante, desconfortável. Passam as horas e não vens…onde estás?
A dúvida abala-me e acende-me a inconsciência. Amo-te e não vens…amo-te e não estás… Penduro-me num sentimento leve e fluido, que se prolonga no tempo, num tempo que não sinto, num tempo que não passa porque não estás no tempo. Não estás sequer no espaço a desfrutar do tempo. Vives outro espaço e outro tempo distantes do meu, talvez felizes, talvez não, suficientes para me contrair à saudade no tempo e no espaço onde existo sozinho! Onde estás? Porque não vens?
As lágrimas transbordam-se pelos olhos e reduzem-se a vapor porque tenho medo de chorar. Tenho medo de ti, de dizer que te amo, de te amar! Quando estás tenho vergonha de te olhar directamente e, pelo canto do olho, me escapam pestanejares tímidos e incontroláveis que se esforçam para te ver, a ti, num momento concreto…agora que não estás, quero-te ver, olhar-te, saciar a minha fome em ti e na tua figura, na tua existência incómoda quase violenta que queima o meu coração!
Os momentos continuam sufocados pela tua materialidade ausente, como se a ausência de ti atrasasse os ponteiros do relógio. Sinto-me a deslizar por sensações cada vez mais estranhas e pressinto-me do outro lado, do lado mau da realidade, na inconsciência da tua vinda. Talvez um dia, a oportunidade de te olhar directamente os olhos seja tão constrangedora ao ponto de me sentir obrigado, forçado, a vomitar o que sinto por ti. Volta e marca a tua existência perto de mim. Força-me a sentir os escrúpulos saídos de mim para te olhar. Onde estás? Onde estás?
E tudo continua igual, eu aqui e tu lá, não sei bem onde porque não te vejo ou sinto. A igualdade do tempo que passa e do espaço que não acompanha, … é como um comboio, que foge imprevisto da estação mas que, pelo carril, se sente a sua presença, se ouve a sua existência, se anseia a sua volta.
Onde estás? Quando voltas?
Fábio in 23.03.2009
viagem
O tempo incontável. Os milénios inscritos em segundos. O tempo de passar a margem do consciente para o obscuro da escuridão reluzente dos sonhos. A ponte para a beleza espinhosa do sono. Subconsciente. Inconsistente da atitude de querer dormir. Treme a mente, o transe apodera-se. Domina o caos durante milionésimas de segundo. Lembro-me vagamente da hora em que adormeci. Olho o escuro ao fundo do túnel. Penetro nele. Involuntário sou atraído para ele. Inconsciente. Vejo imagens soltas do meu cérebro. Sinapses perdidas. Vejo episódios esquecidos. Vulgaridades quotidianas. Escolho uma.
Algo acontece. Sou conduzido por um espírito desconhecido. Algo acontece sem que me aperceba. Mexo-me nos lençóis por instantes. Não sinto nada cá fora. Estou preso por mim mesmo. Quero sair de mim, mas fora o relaxamento aprisiona-me. Os meus olhos internos arregalam-se indignados, como que paralisados sem saber o que fazer. Resigno-me a ver isto. O pesadelo toma conta de mim. A minha respiração acelera-se e eu durmo profundo no destino negro que me leva a noite. Vou morrendo em pedaços pequenos de vida. Lâmpadas, estalidos e folhas secas. Um intervalo único entre imagens de um caminho. As árvores ao lado a engolir a noite onde me asfixio nos mantos. Fedo num hálito enjoativo e num contorno de sujidade falsiforme. Passaram já horas desde que adormeci. Lá fora a luz entra nas frinchas da janela e evapora-me um liquido qualquer, uma nojice nas pestanas. É incomodativa a interferência do sol na noite onde ainda existo. Sufoco. Agora a água pressiona-me a traqueia. Inevitabilidade da morte. E contorço-me, esmago-me nos lençóis, rilho os dentes. Um suor sublinha-me o corpo…e acordo.
Afinal são três horas da manhã.
Fábio in...can't remember
Algo acontece. Sou conduzido por um espírito desconhecido. Algo acontece sem que me aperceba. Mexo-me nos lençóis por instantes. Não sinto nada cá fora. Estou preso por mim mesmo. Quero sair de mim, mas fora o relaxamento aprisiona-me. Os meus olhos internos arregalam-se indignados, como que paralisados sem saber o que fazer. Resigno-me a ver isto. O pesadelo toma conta de mim. A minha respiração acelera-se e eu durmo profundo no destino negro que me leva a noite. Vou morrendo em pedaços pequenos de vida. Lâmpadas, estalidos e folhas secas. Um intervalo único entre imagens de um caminho. As árvores ao lado a engolir a noite onde me asfixio nos mantos. Fedo num hálito enjoativo e num contorno de sujidade falsiforme. Passaram já horas desde que adormeci. Lá fora a luz entra nas frinchas da janela e evapora-me um liquido qualquer, uma nojice nas pestanas. É incomodativa a interferência do sol na noite onde ainda existo. Sufoco. Agora a água pressiona-me a traqueia. Inevitabilidade da morte. E contorço-me, esmago-me nos lençóis, rilho os dentes. Um suor sublinha-me o corpo…e acordo.
Afinal são três horas da manhã.
Fábio in...can't remember
'inexplicabilidade'
Inexplicável. Quando os rumos dos nossos olhares se cruzam, quando a nossa respiração acelera ao mesmo ritmo, quando tu e eu nos unimos pela força invisível mas existente de algo, quando tudo acontece ao mesmo tempo e nada acontece ao acaso, acontece. Acontece o acontecimento neutro, voraz, feroz que dentro de nós anseia por sair, anseia por fugir, anseia por se denunciar. O inexplicável acontece. A ciência é nula, a magia é constante. Inexplicável. A explicação não compreende. A compreensão não explica. As mais diversas e aplicáveis teorias não se moldam ao tudo o que um olhar transmite. Não compreendemos o momento. Não o explicamos porque é inexplicável.
Inexplicável é a ponte invisível, sólida e ténue que nos liga. Conecta-nos.
Inexplicáveis são as tremuras que sentimos debaixo da delicada pele que nos deixam imóveis.
Inexplicável é tudo o que acontece ao mesmo tempo, no mesmo instante, no mesmo lugar. Nada muda. Só tu e eu. Nós. Estamos no tempo. Estamos no espaço. Sem conseguir sair, contudo, sem querer sair. As horas são infinitas naquele segundo. O universo foge, desaparece. Desaparece tudo e desaparecem todos. Estamos ali, sozinhos. Presos por um olhar que nos liga, interliga. Sentimos um arrepio multiplicado por muitos, como uma brisa de uma manhã primaveril ainda apegada aos rigores do Inverno. O calor que nos incomoda, denuncia-nos. Fala por nós aquele calor mágico.
Aproximamo-nos.
O metabolismo do nosso olhar emerge pelos passos que damos. Somos empurrados por algo inexplicavelmente confortante. Ali, naquele lugar, naquele instante somos um. Somos um unido por nós. Somos um unido por olhares atentos, disfarçados de intentos que um olhar impinge. A imponência desse olhar revela o mais fraco que existe em nós, dentro de nós, entre nós.
Tocamo-nos.
Ouro. Brisas perfumadas. Harmonia. Nuvens de duvidas assaltam-nos embaciando-nos a vista. Perguntamo-nos se podemos fazer isto ou aquilo. Será que posso tocar aqui. Sem responder a nada continuamos. O inexplicável aconteceu, acontece e vai acontecendo. Os nossos corpos, inconstantes na sua forma, variáveis na sua temperatura, moldando-se no seu interior, aproximam-se. Os braços abraçam. As pernas paradas. Dançamos ao sabor do momento. Sem nunca sair do lugar, dançamos valsas e tangos à medida que nos sentimos reciprocamente. Desejos que se anseiam por dentro, que se “inexplicam” por fora. O que se desejava, realidade se torna. Como um pressentimento enaltecido pelo pensamento que inexplicavelmente acontece e nos deixa incompreensivelmente pensativos.
Beijamo-nos.
Miraculoso é o toque. Milagreiro se torna o momento. Cura mutuamente os sentidos. Acalma-me os sentimentos. Os lábios juntam-se num só. Avermelham-se enternecidamente. Garridos mostram o inexplicável lugar que nos oculta, que nos esconde. O sabor vulgar, misterioso da língua identifica-nos. Agora estou dentro de ti e tu dentro de mim. Unidos pela suave e fixadora sensação de sermos o outro. Pilares se constroem dentro de cada um. Dentro de cada um visões são transmitidas. O teu calor interno abala-me, amortiza-me. O paladar é doce como o açúcar e saboroso como o chocolate, é o melhor que pode haver, porque naquele momento somos nós e não eu ou tu. É inexplicável porque é nosso.
Acaba. Olhamo-nos. O fio dourado ligado aos nossos olhos rompe-se pela mesma força inexplicável que o criou. Contudo, agora o fio não nos liga. Agora nada nos liga. Agora, somos um, conectado pela existência de que somos de alguém. E que num dado instante, onde o tempo parou e o espaço deixou de existir, fomos um corpo, abraçado por um pensamento, sentido por um desejo, saboreado por um beijo.
Fábio in 4.11.08
Inexplicável é a ponte invisível, sólida e ténue que nos liga. Conecta-nos.
Inexplicáveis são as tremuras que sentimos debaixo da delicada pele que nos deixam imóveis.
Inexplicável é tudo o que acontece ao mesmo tempo, no mesmo instante, no mesmo lugar. Nada muda. Só tu e eu. Nós. Estamos no tempo. Estamos no espaço. Sem conseguir sair, contudo, sem querer sair. As horas são infinitas naquele segundo. O universo foge, desaparece. Desaparece tudo e desaparecem todos. Estamos ali, sozinhos. Presos por um olhar que nos liga, interliga. Sentimos um arrepio multiplicado por muitos, como uma brisa de uma manhã primaveril ainda apegada aos rigores do Inverno. O calor que nos incomoda, denuncia-nos. Fala por nós aquele calor mágico.
Aproximamo-nos.
O metabolismo do nosso olhar emerge pelos passos que damos. Somos empurrados por algo inexplicavelmente confortante. Ali, naquele lugar, naquele instante somos um. Somos um unido por nós. Somos um unido por olhares atentos, disfarçados de intentos que um olhar impinge. A imponência desse olhar revela o mais fraco que existe em nós, dentro de nós, entre nós.
Tocamo-nos.
Ouro. Brisas perfumadas. Harmonia. Nuvens de duvidas assaltam-nos embaciando-nos a vista. Perguntamo-nos se podemos fazer isto ou aquilo. Será que posso tocar aqui. Sem responder a nada continuamos. O inexplicável aconteceu, acontece e vai acontecendo. Os nossos corpos, inconstantes na sua forma, variáveis na sua temperatura, moldando-se no seu interior, aproximam-se. Os braços abraçam. As pernas paradas. Dançamos ao sabor do momento. Sem nunca sair do lugar, dançamos valsas e tangos à medida que nos sentimos reciprocamente. Desejos que se anseiam por dentro, que se “inexplicam” por fora. O que se desejava, realidade se torna. Como um pressentimento enaltecido pelo pensamento que inexplicavelmente acontece e nos deixa incompreensivelmente pensativos.
Beijamo-nos.
Miraculoso é o toque. Milagreiro se torna o momento. Cura mutuamente os sentidos. Acalma-me os sentimentos. Os lábios juntam-se num só. Avermelham-se enternecidamente. Garridos mostram o inexplicável lugar que nos oculta, que nos esconde. O sabor vulgar, misterioso da língua identifica-nos. Agora estou dentro de ti e tu dentro de mim. Unidos pela suave e fixadora sensação de sermos o outro. Pilares se constroem dentro de cada um. Dentro de cada um visões são transmitidas. O teu calor interno abala-me, amortiza-me. O paladar é doce como o açúcar e saboroso como o chocolate, é o melhor que pode haver, porque naquele momento somos nós e não eu ou tu. É inexplicável porque é nosso.
Acaba. Olhamo-nos. O fio dourado ligado aos nossos olhos rompe-se pela mesma força inexplicável que o criou. Contudo, agora o fio não nos liga. Agora nada nos liga. Agora, somos um, conectado pela existência de que somos de alguém. E que num dado instante, onde o tempo parou e o espaço deixou de existir, fomos um corpo, abraçado por um pensamento, sentido por um desejo, saboreado por um beijo.
Fábio in 4.11.08
Equações do Vento
Morrem as árvores do lado frio da janela. Crucificam as últimas folhas nos galhos escuros com formas que lembram o fim. Porque ali estão, altas e nuas, incompletas pela força do vento que passa algumas vezes. E permanecem em pé, do lado frio do vidro, seguras ao chão como as árvores altas…
Vai passando gente, dividida em passos apressados, com os cabelos enfurecidos pelo vento. Não me vêm porque não olham nem querem olhar, pois os olhos fogem-lhes entre as esquinas e entalam-se entre o chão e o céu. Contudo, qualquer coisa muda. O céu foge mais lento e a janela desfoca as árvores porque respiro mais rápido.
Não sei, mas penso-me lá fora enquanto a chuva começa a limpar o ar com gotas que parecem suor. Quase que me aquecem…
E os pingos caem lentos, seguindo regras específicas, em sítios planeados pelas nuvens. Imagino-os em equações perfeitas, com resultados únicos, tão únicos como as esquinas que aguçam os prédios ou tão afiados como os galhos.
Vejo o ar encharcado a molhar as folhas mortas, trazendo lágrimas que se choram lá longe…
E o momento prolonga-se, embaciando o vidro com uma espécie de ansiedade qualquer…e pergunto-me porquê.
Porque os meus porquês fogem como os entretantos metidos no meio da chuva. E no meio de mim tremo de frio…
Fábio in 22.01.2010
Vai passando gente, dividida em passos apressados, com os cabelos enfurecidos pelo vento. Não me vêm porque não olham nem querem olhar, pois os olhos fogem-lhes entre as esquinas e entalam-se entre o chão e o céu. Contudo, qualquer coisa muda. O céu foge mais lento e a janela desfoca as árvores porque respiro mais rápido.
Não sei, mas penso-me lá fora enquanto a chuva começa a limpar o ar com gotas que parecem suor. Quase que me aquecem…
E os pingos caem lentos, seguindo regras específicas, em sítios planeados pelas nuvens. Imagino-os em equações perfeitas, com resultados únicos, tão únicos como as esquinas que aguçam os prédios ou tão afiados como os galhos.
Vejo o ar encharcado a molhar as folhas mortas, trazendo lágrimas que se choram lá longe…
E o momento prolonga-se, embaciando o vidro com uma espécie de ansiedade qualquer…e pergunto-me porquê.
Porque os meus porquês fogem como os entretantos metidos no meio da chuva. E no meio de mim tremo de frio…
Fábio in 22.01.2010
Não-Vento
O vento asfixia as árvores lá fora. Sinto-as a sufocarem, a silenciarem-se devagar no sozinho da noite. Parecem não se mexerem e não morrerem. Ficam-se ali, assim desnudas, sofrendo arrefecidas. Nada fazem senão agitarem um ou outro ramo que parece desfalecer. Evitam lutar com os mais grossos, os mais fortes, porque o vento é ágil. Vão morrendo, uma a uma, entaladas no vento que assobia.
E faço-me de testemunha com a persiana entreaberta, inoculando as sensações que não recebo do vento. Não lhe sinto os socos, o cheiro ou o suor. Não lhe sinto o corpo musculado. Não o vejo… Apenas agarro à retina a imagem das árvores a tremerem por um espírito que se faz assobiar.
Aproximo-me da janela.
Quero ouvir o rancor dele, do ar rápido. Quero sentir a prisão dos seus braços no meu pescoço. Quero que me arranque os cabelos… Quero sangrar!
Encosto o ouvido no vidro.
Talvez um sussurro defina o sinal? Rouquidão pura, lenta como o ranho a cair, enquanto a persiana abana um pouco. Sei que vem de cima, do alto da fachada. Quero vê-lo!
Destranco o vidro… Abro-o devagar, incauto. À medida que desliza, pela abertura ele penetra. Vou abrindo mais e ele entra mais, rompendo as cortinas com fomes de bestas. Vai entrando e aumentado o seu circuito, a sua órbita em mim, devagar e só.
Lanço-me lá fora.
Continuo sem o ver… Procuro o vento lá em cima, ao redor do céu, pelas esquinas da escuridão, debaixo das raízes. Nada… Porquê?
Não o vejo, nem ouço. Não sinto nada nas árvores. Nenhum rumor de mundos, nenhuma estrela colossal, nada!
Não me esgana nem esmaga. Parece que faz a lua ter frio. Parece que congela o limite do universo e exclama silêncios. É calado e hipócrita. …mas não o vejo.
Aqui, no meio do pátio, com a visão do meu quarto de janela aberta. Nada aconteceu como arranhara a memória. Tanta quietude, tanto nada na noite…tanto vento. Só isso, vento… Nenhum grito que possa captar, nenhum punho que me faça cair, nenhum espírito a que possa dar nome. Só isso, vento.
Sinto a boca seca porque dela me sai o vazio. Ou talvez palavras esvaziadas…não sei.
Talvez gritasse agora. Para quê? Porque não me ouve aquilo que não vejo…
Acordo, abro a janela, mecânico.
(suspiro)
É de manhã (suspiro) …
…e está a chover.
06.03.2010
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